
O Fantasporto.
O festival de cinema do Porto balança, para a alegria de alguns nos quais me incluo, entre o centro comercial e feira de artesanato, o restaurante da moda e o "rei dos galos de amarante", tasco onde se recomenda a cabidela ou a língua estufada já agora. Esta forma ingénua de organizar um festival dá-lhe um encanto especial e permite-nos pescar das profundezas do mar (desta vez da China) pérolas que de outra forma ficariam inacessíveis aos olhos lusos.
Falo de Isabella, um filme de Hong Kong que conta a história de um polícia corrupto e promíscuo que tenta "engatar" uma adolescente que resulta ser a sua filha, fruto de uma relação antiga e esquecida. O pano de fundo é Macau dias antes de sua entrega à China, em tudo igual à Lisboa dos bairros, degradada, decadente, encantadora.
A história é uma metáfora da busca de identidade de um povo ignorado pela potência administrante (Portugal), abandonado à sorte de viver de expedientes tipo máfia, sem sensação de pertença ou sentido de futuro. Invisível.
A bela banda sonora, fado da Mariza incluído, ganhou o urso de prata do festival de Berlim.
Tem Humor, Poesia e um encanto Oriental que faz com que tenha valido a pena 400 anos de espera.
Termino por hoje com um grande beijo de até já ao Tio Zé. Em breve estaremos todos juntos à volta das conversas e dos néctares preparados pelo Né!
3 comments:
Faço meu, o teu desejo expresso no último parágrafo. Assim seja!
Isabella recordou-me um outro filme, também ele chinês, em meados da década de 90. Retratava uma família disfuncional cuja única partilha era o espaço da casa. O ambiente indicava tratar-se de um casamento que encobria a homossexualidade do pai. Primava a falta de afecto, o silêncio e a total dessincronização das três vidas - pai, mãe e filho. Não me recordo do nome do filme, nem do realizador e muito menos dos actores. Aliás, tudo o que me fica dos filmes são imagens, pequenas sensações e impressões. Raramente faço a sua dissecagem ou catalogação. Sou péssima em conversas de cinema. Fico sempre no papel de ouvinte, num esforço de localizar as ditas imagens e impressões, nos inúmeros nomes e cenas que normalmente são disparados nessas conversas.
Isabella trouxe-me instantaneamente ao de cima este filme, há muito arrumado na minha mente, também pela cena de incesto desenrolada na casa de prostituição onde o filho trabalhava. O pai nunca se apercebeu (o não assumir a sua homossexualidade levava-o a não fitar os seus amantes). A indiferença no olhar do filho era a mais preocupante, a perca de todo o sentido. Atirou-se da janela do prédio impessoal onde viviam. Não tinha cor nem som.
Nu e cru.
Coisas que ficam sem nos apercebermos.
Ainda bem.
Post a Comment