Sunday, 4 March 2007

Estórias das Ilhas

No dia-a-dia desta aldeia alentejana são as mulheres que arregaçam as mangas e labutam. E o que fazem eles, os homens desta aldeia, perguntam vocês? Passam a manhã e a tarde (após a sesta) sentados como lagartos ao sol nos bancos públicos e encostados às brancas paredes das casas, que as mulheres caiam. O exercício diário destes camaradas cinge-se a um levantar e baixar de braços a quem entra e sai da aldeia de carro. Não é fácil, garanto-vos. Estão perfeitamente sincronizados tal qual as ondas nos estádios de futebol. E fazem-no em absoluto silêncio, como num ritual religioso. São perfeitamente escrupulosos nesta conduta diária.
Centremo-nos nas excepções:
O Sr. Zé, senhor dos seus 83 anos, e com uma miopia de último grau (só levanta o braço no dito ritual quando saio com o carro vermelho Ferrari) ofereceu-se para cultivar a grande propriedade que a Lia possui (um quintaleco com 100 m2). Resultado: quando podava uma das oliveiras, não acertou com o pé no escadote e estatelou-se no chão, dando cabo de um pulso. Como se não bastasse ainda levou um grande raspanete da irmã: “Nunca trabalhaste toda a vida e é agora depois de velho que te deu para isto”. Quase que lhe batia (são também as mulheres que por aqui mandam).
Substitui-o então o seu jovem primo Sr. Martinho que está na casa dos 70. Embora analfabeto possui uma literacia funcional admirável (arranja solução para tudo e resolve pequenas grandes coisas sempre com perícia e perfeccionismo). É um verdadeiro sábio e tem um ritmo de vida ainda mais lento que os seus conterrâneos, consequência da sua sabedoria e também da brucelose que o vitimou.
Naturalmente, nem todo o alentejano se dá bem com tanta inércia. O vizinho, precocemente reformado, vivia com a angústia de ter tempo a mais (coisa difícil de nós imaginarmos tanto é a nossa louca correria). Na manhã de hoje, essa angústia, acentuada pela austera simplicidade desta paisagem que se faz acompanhar de um cenário longínquo e sem fronteiras, conduziu este homem a um acto solitário e desesperante: enforcou-se num cabeço cá da aldeia.
Estou triste.

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Qual é a ideia base?

Foram ao cinema e gostaram do filme (ou não), aquele concerto imperdível, a peça de teatro que não presta, uma saida à noite, umas férias fantásticas (ou menos), um restaurante recomendado, uma conversa de familia, um livro que devem ler sem falta, uma bosta dum problema no trabalho, um desabafo, tudo, nada... enfim...
Eis algumas ideias do que podemos escrever aqui, para que todos os Calvões se mantenham informados, sobre tudo o que rodeia a nossa família e sobre tudo aquilo que fazemos e somos.

Vá lá, não custa nada e pelo contrário ganhamos muito em nos conhecer ainda melhor e por saber um pouco dos gostos / desgostos / problemas / dilemas de cada um
Eu, pela minha parte, vou tentar escrever aqui qualquer coisa pelo menos uma vez por semana..a ver se dinamizamos esta ideia...

TUDO DEPENDE DE NÓS!!

Calvões - Sempre um passo à frente!